Cinema – Besouro avoador

 

Besouro foi uma ousadia em um meio cinematográfico que mais fala de realidade
social e comédias do dia a dia. Como retrato de cultura e de época e traz para o
público uma interessante e diferente visão da vida no recôncavo baiano durante a
década de 20, alguns anos após a abolição da escravatura, onde o Brasil ainda passava
pelo processo de mudança. E hoje vamos analisar melhor uma das poucas ficções
nacionais e apontar características importantes desta produção.

Antes de introduzir a história é importante saber que o filme foi baseado no romance
de Marco Carvalho chamado Feijoada no Paraíso, onde o autor trata do mito de
Besouro, um negro que lutava para defender o povo utilizando a capoeira como arma
nde o nome besouro foi escolhido porque o homem que joga capoeira voa mesmo
quando nenhum outro deveria conseguir, assim como um besouro que apesar do
tamanho e forma também pode voar.

Manoel, Aílton Carmo, é um negro morador do recôncavo baiano que aprende com o
mestre Alípio, Macalé, a capoeira a cultura dos orixás e as virtudes da concentração
e justiça, para assim como ele, Besouro poder lutar pelo seu povo, que mesmo não
sendo mais escravo sofria grande preconceito e perseguição da aristocracia.
O dever de Manoel é proteger o mestre Alípio, mas o jovem e prodígio aprendiz se
distrai e deixa o mestre a mercê dos homens do Coronel Venâncio, Flávio Rocha, que
em uma briga no bar matam o velho mestre.
A comunidade negra se revolta e Besouro, ajudado pelos Orixás, junto com o povo vai
lutar contra a tirania.

Um plot bem simples e superbatido, mas a grande diferença aqui é a qualidade com a
qual foi reproduzida a vida deste povo na Bahia da década de 20.
Outro ponto alto do filme é a bela fotografia e também a relação do filme com o
sobrenatural de forma bem sutil, onde os orixás, vindos da cultura africana são,
mesclados a cultura nacional.

Tudo para ser um ótimo filme, mas os erros aqui se dão nas muletas utilizadas pelo
diretor Tikhomiroff como o empapuçado triangulo amoroso entre Dinorá, Jéssica
Barbosa, Quero-quero, Anderson de Jesus, e o besouro, que não acrescenta muita
coisa a trama a não ser o confronto entre os dois.
Separados o personagem Quero-quero e Dinorá são muito importantes para a trama
se o Manoel não se metesse no meio. Além disso, outra característica negativa é a
jornada heróica do filme, que segue muito bem durante todos os momentos, inovando
e quebrando clichês até no final tomar um rumo muito fraco, deixando o desfeixo
do filme muito etéreo demais, sem as devidas amarrações o filme termina com um
sentimento de “é só isso?”.

Apesar de provavelmente ter sido uma estratégia para chocar o publico com um
desfecho inesperado, a produção negligenciou uma regra importante de expectativa
que diz respeito a um herói, como no caso de Besouro só poder realmente morrer
após ter conquistado algum objetivo, seja ele matar seu algoz, enfrentar o mais
poderoso de todos os inimigos, o que soa bastante batido, mas também existem

outras opções mais criativas, como por exemplo ter providenciado em algum
momento anterior do filme uma deixa para que ele se previna contra sua morte
de forma singela e pouco importante, para no final do filme revelar esta ação com
destaque formando uma reviravoltas que além de dar ao público mais um motivo para
gostar do seu herói, aguça a sua percepção e interação, pontos positivos para qualquer
produção.

Mesmo com um ótimo visual, contagiante interações com os Orixás, em especial Exu
e o grande diferencial nacional de ousar com uma ficção, Besouro tropeça em um
roteiro fraco e pendurado em muletas, e peca por não ousar na produção como ousou
na proposta.

Alexandre Prados

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